Inovação de verdade: pare de chamar “tarefa” de P&D e comece a capturar fomento

Se sua empresa quer usar fomento governamental (FINEP, FAPs e afins), a primeira lição é cruel e libertadora: inovação tem definição técnica. E ela não liga para seu rebranding, o uso de termos como “squad” ou seus posts com “✨IA✨” na bio. E sim, artigo é uma coisa (= científico), post e matéria publicada são outra (conteúdo).

O Manual de Oslo (OCDE) define inovação como produto ou processo de negócio novo ou melhorado que difere significativamente do que a empresa fazia e foi implementado (no mercado ou está em uso).

Sim = implementado
Não = idéia/projeto

[A] O que é inovação (segundo o Manual de Oslo)

O Oslo 2018 simplifica em 2 tipos (ótimo para quem odeia matriz 4×4):

  1. Inovação de produto
    Bem/serviço novo ou significativamente melhorado, introduzido no mercado.
  2. Inovação de processo de negócio
    Processo novo ou significativamente melhorado, colocado em uso na empresa.

Tradução para o cotidiano:

  • Produto: seu serviço muda o resultado entregue (ex.: de “relatório mensal” para monitoramento preditivo com alertas e metas de redução de falha).
  • Processo: você troca “decisão no feeling” por uma rotina operacional baseada em dados/modelos que altera tempo, custo, qualidade ou risco — e vira padrão da empresa (não fica “em piloto desde 2022”).

Ponto importante: inovação pode ser nova para a empresa (não precisa ser “nova para o mundo”).

[B] O que não é inovação (mesmo que o slide fique bonito)

Aqui está a lista dos “crimes sem vítima” mais comuns em empresas que ainda não usam fomento:

  • Manutenção/upgrade rotineiro: “atualizamos a versão”, mas nada muda de forma significativa.
  • Mudança cosmética: trocar cor, layout, nome do plano (“Pro Ultra Max”) e chamar de inovação. (Isso é marketing — e marketing é ótimo, só não é P&D.)
  • Compra de ferramenta sem mudança real de processo: “agora temos CRM/BI/IA”, mas a operação continua igual.
  • Projeto sem implementação: se não entrou em uso ou no mercado, ainda não virou inovação.

[C] O que parece inovação, mas não é (os disfarces clássicos)

  1. “Temos IA!”
    Usar IA para escrever e-mail, ata e post… pode aumentar produtividade. Mas se não muda produto ou processo de forma significativa e implementada, não vira inovação pelo Oslo. (É “automação de escritório”, não P&D.)
  2. “Laboratório de inovação” que só produz workshop
    Post-it é útil. Mas post-it não é evidência de implementação.
  3. POC eterna
    POC de 18 meses sem virar operação é o purgatório corporativo: não é falha, não é sucesso — é só caro.
  4. “Transformação digital” = digitalizar formulário
    Tirar fila do papel ajuda, mas muitas vezes é automatizar o velho. Pode ser inovação se houver mudança significativa e implementada; se não, é só organização.

Por que isso é “divisor de águas” para fomento (FINEP, FAPs etc.)

Porque fomento costuma buscar P&D com risco tecnológico, entregáveis e impacto verificável. A boa notícia: o governo (sim, ele) pode ser seu sócio quando você estrutura P&D de forma séria — inclusive com ICTs, mestres e doutores.

E tem mais: além de fomento direto, o Brasil tem incentivos fiscais que muita empresa subutiliza:

  • Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005): incentivo fiscal para empresas (em geral, Lucro Real) que realizem P&D e inovação tecnológica.
    Dado concreto: em notícia oficial do MCTI, no ano-base 2024 (divulgado em 2025) a Lei do Bem teria permitido direcionar R$ 51,6 bilhões em inovação via 14 mil projetos.
  • Lei de Informática (Lei nº 8.248/1991): benefícios condicionados (ex.: PPB) e exigências de investimento em P&D; o gov.br descreve contrapartida de 5% do faturamento bruto dos bens incentivados (após deduções) em P&D.

Resumo: dá para fazer P&D com time gabaritado (contratado com recursos do governo) e ainda combinar com incentivos depois que o produto é lançado. Quem não usa, muitas vezes está deixando dinheiro na mesa (e depois reclamando que inovação é “cara”).

Quer auxílio de como proceder?

Checklist básico: “isso aqui é inovação financiável?”

  • Tem novidade ou melhoria significativa (não cosmética). (oecd.org)
  • Está implementado (no mercado ou em uso). (oecd.org)
  • Resolve um problema com métrica (custo/tempo/qualidade/risco/receita).
  • Tem risco tecnológico real (não é só implantação de prateleira).
  • Tem plano de trabalho e governança (entregáveis, marcos, TRL/validação).
  • Tem estratégia de captação (FINEP, FAPs etc.) + incentivo fiscal (Lei do Bem / Lei de Informática, quando aplicável). (ipea.gov.br)

O governo já colocou meios para você fazer P&D sério, contratar gente boa (via ICTs), reduzir risco e ainda combinar com Lei do Bem e Lei de Informática. Enquanto isso, muita empresa segue inovando usando termos chavões, sites com degradê e vídeo no Tiktoc. Se você não usa fomento, alguém do seu setor está usando: E investindo esse dinheiro que você deixou na mesa.


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